Especial

Ondas do Verão

A chegada do verão faz a Praia da Pipa ferver com o calor escaldante da terra do sol que atinge seu auge na escala de medição dos níveis de radiação solar.

Entre os meses de Novembro a Março, o calendário favorece a onda tsunâmica de turistas do mundo todo que desembarcam em nossa “antes pacata vila”.

Esse tsunami fomenta o turismo e o comércio local e traz brilho e grande movimento aos dias e noites da tão badalada Praia da Pipa.

Férias de inverno em toda a Europa, férias dos brasileiros, turistas das capitiais mais próximas como Recife, João Pessoa, Natal, Maceió, Aracajú e Fortaleza, turistas do sul, sudeste, centro-oeste e norte do país, argentinos, uruguaios, peruanos, chilenos, americanos…  a lista segue e é infinita.

Nas ruas da cosmopolita Pipa, se ouve todas as línguas e linguagens, classes sociais distintas se misturam num passeio democrático em uma utópica condição humana, numa vila global charmosa e banhada por natureza exuberante e por ondas de alto nível.

Pois é, as ondas…

Recebemos nesses meses de alta temporada os melhores swells do ano, ondulações que chegam do Atlântico Norte com força e boa distância percorrida.  Ao saírem de aguas profundas e atingirem os fundos mais rasos próximos do litoral, essas ondulações formam ondas com possibilidades de até 6 pés que se levantam com pista extensa e sessões tubulares por cima das diversas lajes de coral e fundos de pedra de nossa região.  São cenas indonesianas e condições para todos os tipos e estilo de surfe.

Hoje com os recursos da internet, gráficos e previsões de ondas, fica cada vez mais escasso os pontos secretos de surfe, com isso, ondas antes surfadas apenas entre amigos e comunidade, começam a ser invadias por pessoas de todos os tipos e consequentemente os nervos começam a ferver dentro do mar.

O Surfe ganha cada dia mais adeptos pois sofreu um boom de popularidade nos últimos anos com a chegada dessa nova geração chamada “Brazilian Storm”, com a transmissão do WSL para as grandes massas pela TV e pela internet e também com o desânimo sofrido com o futebol da seleção brasileira.

Com esse acréscimo substancial de novos surfistas, os problemas de convivência ficam cada vez mais latentes dentro do mar causando momentos lamentáveis em um ambiente antes pacífico e harmonioso.

Os nativos de Pipa sempre foram um povo pacato e hospitaleiro, assim foi no mar desde o inicio do surfe em nossa região nos anos 70. As tendências agressivas e localistas foram importadas para o nosso litoral de outros mares.

Como funciona o localismo: 

Quem descobre uma onda nova que nunca foi surfada, tem a tendência a esconder esse segredo. Ao mesmo tempo, a ansiedade de compartilhar essa descoberta com os amigos é insuportável e o segredo acaba por ser dividido com alguns amigos de confiança. Um desses amigos terá a tendência a querer tomar crédito pela descoberta ou compartilhar o segredo e acaba entregando o ouro a outro amigo. Nessa corrente, aos poucos o pico antes secreto, passa a se popularizar. Uma vez que já atingiu um número considerado de frequentadores disputando as mesmas ondas, começa então a disputa por hierarquia e direitos especiais dentro do line up. Um por ser mais velho, outro por ter sido desbravador, outro por ser mais experiente, outro por ser local, ou por qualquer razão que possa justificar individualmente uma carta verde com condições especiais de direito no mar.

O problema é que o direito acaba onde começa o do outro, ou assim deveria ser numa ideia de convivência utópica.

Infelizmente, muitos interpretam essa hospitalidade nativa como ingenuidade, e passam a abusar dos direitos individuais, desrespeitando os mais antigos e os moradores que por natureza tem o conhecimento e entendimento local.

Quando alguém vem a sua casa sem convite, entra na sua sala com os pés sujos, abre a geladeira, bebe agua no gargalo, senta, come a comida e ainda reclama do tempero, logo esse se torna persona non grata e dificilmente será aceito de volta a sua casa.

Assim acontece também no mar, todos os anos durante o verão, nativos e moradores são desrespeitados, desvalorizados e também hostilizados dentro do mar, normalmente por uma camada que vem das capitais e que vive e convive o ano todo em um ambiente competitivo, rude, onde o que impera é a lei do mais forte e da esperteza. Esses elementos infelizmente são trazidos de fora pra dentro e naturalmente as gerações que foram oprimidas, passam a oprimir uma vez que o poder é trocado de mãos.  Os meninos nativos que sofreram com o localismo e hostilidade imposta pelos surfistas mais velhos das capitais ao longo dos anos, agora cresceram, se tornaram homens e estão assumindo o posto de detentores do direito maior nas ondas. Essa corrente perigosa gera violência e hostilidade, mas essa raiz maldita esta implantada na comunidade como forma de defesa e de reinvindicação de direitos uma vez que os mesmos direitos foram tomados a força pelos então supostos detentores do poder autárquico das ondas.  Quem bate não se lembra, já quem apanha nunca esquece.

Enquanto as previsões já apontam os swells chegando nos próximos dias, uma ansiedade boa passa a se tornar uma ansiedade tensa. Sabemos o que vem por aí e quem vem por aí, queremos defender nossos direitos e não deixaremos ninguém passar por cima deles, queremos poder ter nosso espaço de conforto e diversão sadia defendido e protegido, custe o que custar.

Como o surfe em essência é um esporte de contato com a natureza e que provê essencialmente um sentimento de integridade com o Divino, é de se surpreender que esses sentimentos tenham tomado o mundo do surfe, mas é uma realidade e não ha como fugir dela, é irreversível.

Se em sociedade não conseguimos conviver pacificamente, no mar não seria diferente.

A sociedade moderna e seus valores aguçam as ações mais instintivas e primitivas do ser humano, mesclado a conceitos de pertencimento, de territorialidade, de superioridade intelectual ou étnica, de exclusão e de brutalidade.

As guerras começaram quando o homem decidiu estabelecer limites de território e passou a dividir a terra dos índios se apropriando das mesmas e vendendo a eles seus valores materiais. A história se repete agora no mar.

As ondas do verão estão chegando e o frio na barriga também!  Como seremos tratados esse ano?

A única certeza que temos é que o crowd atingirá níveis históricos esse ano.

Dicas:

Antes de entrar no mar, observe. Em dúvida, pergunte. Procure saber os conceitos de prioridade. Procure saber quem é nativo e quem é quem dentro do mar. Procure chegar no mar tranquilo, humilde e respeitoso. Espere sua vez e sua onda, ela virá no momento certo. Não tente se impor sobre ninguém, seu espaço será ganho mais rapidamente se seguir as dicas acima.

Tem onda pra todo mundo, mas nem todo mundo quer esperar na fila por ela.

Paz, surfe, respeito e boas ondas a todos!

 

Por Isaac Ache

Texto originalmente publicado na Revista Bora, edição 15, janeiro de 2016.

No Comments

    Leave a Reply

    Navegue