Surf

Campeão ou curtidor?

Muito se fala sobre os tipos de pranchas e suas diferentes performances. Uns gostam de pranchão, como os antigos porém muito mais leves hoje em dia. Há quem goste de pranchinhas pequenas, ágeis, quase imbatíveis em tubos e ondas cavadas. Mas na minha modesta opinião, nenhum tipo de prancha é tão importante como o talento do surfista que a usa.

Depois de 44 anos surfando, percebi que sem talento não tem excelente surfista. Mas, pela sabedoria da vida, existem aqueles que mesmo não tendo muito talento, conseguem se divertir e lavar a alma em meio ao oceano e suas ondulações.

Cedo notei que nunca seria um campeão. Apesar da minha competência de pé na prancha, me faltava o tão falado talento para brilhar em competições. Logo comecei a me perguntar se para mim faltava talento para ser um surfista campeão ou faltava o desejo de ser famoso, na minha praia, no meu país ou no mundo.

Além do talento que vem do berço, é importante para quem queira ser um surfista competidor que saiba ser agressivo, no bom sentido da palavra, desafiar a gravidade, fazer aéreos e entubar sem medo de cair da prancha. Por isso fico rindo quando vejo surfistas discutindo que esse modelo de prancha é melhor do que aquele, cada um puxando a brasa para seu lado. Importante mesmo é se o surfista tem talento, aquela coisa que ou já nasce com você ou você nunca terá, nem tentando anos a fio. Já vi bons surfistas arrasarem usando pranchas velhas, quebradas e mal feitas, como também vi muitos surfarem anos a fio sem jamais conseguir vencer um campeonato.

Podem dizer que é como na fábula da raposa e das uvas, que não conseguindo chegar até os altos galhos onde estavam os frutos, disse que “não se interessava” por elas. No primeiro campeonato que entrei, ainda nos anos 60, me descobri muito nervoso, ansioso, preocupado, e por isso mesmo, surfei muito pior do que quando não estava competindo. Resolvi que não competiria mais e assim foi pelo resto dos meus muitos anos de ondas. Mas garanto que conheci pessoas que chegavam na praia pela primeira vez e em poucos meses já estavam dando show de perícia.

O famoso Pepê, do Arpoador, no Rio de Janeiro, foi um destes. Mal começou a pegar onda e já era um craque! Bom para ele, que sempre quis ser um campeão em tudo que fez. Mas, para aqueles como eu, que longe de desejarem ser campeões, queiram apenas se divertir, aviso que o surf é um esporte perfeito, uma atividade lúdica que nos permite esquecer os problemas da vida numa só sessão dentro da água.

Não se preocupem com a performance e sim com o prazer de estar longe da terra, sob aquele céu imenso e sem fim, cercado pelo mar, lambido pelas ondas que vem de tão longe só para nos proporcionar a cura para tensões, tristezas ou dúvidas existenciais.

Se você é um desses, saiba que até existe uma expressão para nos classificar: “soul surfers”, surfistas de alma!

E para encerrar, meu conselho: vá pegar onda sempre que puder.

 

Por Tito Rosemberg

Texto originalmente publicado na Revista Bora, edição 15, janeiro de 2016.

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