Especial

Antes… Agora, e Depois?

“Era uma vez…”

 

Há muitos anos atrás, dois casais que fugiam da seca no sertão começavam a formar uma nova Pipa. As famílias Marinho e Silva, junto com alguns veranistas e posteriormente, surfistas e estrangeiros foram os precursores que se aportaram nessa região para viver.

Aqui, o cenário, a economia, e claro, os hábitos e costumes eram outros.

Sem energia, obtendo água das cacimbas e com muito terreno devoluto, onde quem chegasse e plantasse era dono, tinham a pesca e agricultura como fonte de renda. Ou seria fonte de sobrevivência? Pois a economia, ou melhor, a forma de auto subsistência tinha o escambo como moeda corrente, que na época, pouco ou nada valia. Apenas com o suor de seus esforços cultivando os alimentos trocava-se peixe, feijão, legumes, milho, macaxeira e derivados. Haviam várias casas de farinha (local de preparo dos derivados da macaxeira), muitos carpinteiros navais, algumas rendeiras de bilros, inúmeros agricultores e incontáveis pescadores. As brincadeiras, os encontros e entretenimento eram ricos em poesia, música, dança, histórias e havia bastante participação entre todos da comunidade. O coco de Zambê (frases e canções com instrumentos e dança livre masculina), Coco de Roda (frases e canções com dança de casais em passos marcados) e Dramas (teatro cantado) eram requisitados por todos que conheciam e admirados pelos que desconheciam. Tinha tanta tradição! Sim! Tradição: Tudo que é transmitido, de geração em geração, seja o conjunto de valores morais, costumes, usos, rituais, lendas e técnicas por hábito ou costume adquirido.

O cenário era rico em sombra e intenso verde formado por coqueiros e árvores frutíferas, onde não havia aquele que passasse fome. Com poucas casas de taipa, todos tinham o privilégio da vista do mar. Fechar portas e janelas, jamais! Sem nenhum risco, só para deixar livre a passagem do ar. Curioso era o fato de que o bem imóvel comercializado eram os coqueiros e não a área do terreno em si. Assim, derrubava-se a quantidade de coqueiros comprada ou ganhada para ser construído naquele espaço. Com isso a região lentamente foi sendo transformada pra que as famílias fossem crescendo e seus novos moradores acomodados. Um ao lado do outro, pois a partir de um grande terreno ia-se repartindo para acomodar as famílias formadas pelos recém casados. Isso explica a formação de muitos becos ou ruas estreitas (com ou sem saída). Olhando de fora, nem parece que existiria tantas pessoas morando um colado no outro. E para quem acha isso falta de privacidade ou espaço, há quem prefira e se sinta mais acolhido, uma forma de se relacionar com vizinhos, como se fossem da família.

Nas praias, somente algumas casas dos moradores que resistiam ao avanço do mar. Até que um dia, com a chegada de alguns surfistas, o famoso “boca a boca” foi trazendo mais e mais pessoas para esse encantado local. Entre surfistas, veranistas, e estrangeiros, alguns se amontoavam nos alpendres das casas por não haver onde se hospedar. A comida era oferecida pelos nativos, povo muito acolhedor. Vagarosamente os comércios tiveram que surgir para suprir as necessidades e a partir daí a economia cresce, a urbanização toma conta e acontece uma grande mistura e por que não dizer, choque cultural.

Agora…

Pipequetita cresce muito e rápido. Há muita beleza, qualidade de vida e outros atrativos para todos os gostos. Por isso, desde quando descoberta pelos surfistas e veranistas, ela transmuta de acordo com a ocupação. A cada instante acontece uma “invasão” de pessoas com distintos interesses e é aí que mora o perigo. Os poucos remanescentes de toda riqueza histórica e cultural dessa vila ainda sentem saudades daquele tempo. Porém, a realidade é outra. Os filhos dessa antiga geração, hoje possuem outras oportunidades e necessidades. Até porque, apesar de muito digno e bonito de se ver, a vida naquela época não era nada fácil. Então, com os dias e anos contados, todo esse legado deixará de existir lentamente, pois muito da cultura tradicional local será levada junto com os que deixam essa vida.

Claro! Um cantinho pra lá de especial, com exuberante natureza, imponentes falésias, diversidade de fauna e flora e ainda, a hospitalidade desse povo… Pipa se torna um polo turístico mundialmente conhecido. Isso implica que durante o crescimento, progresso ou “processo de amadurecimento” da região, novas formas de pensar e agir sejam inseridas na cultura local pelos que vieram ou aqui estão. Com isso vários idiomas são falados, novas atividades são trazidas (xadrez / gamão / beachtennis /etc) e novos ritmos inseridos no dia a dia da comunidade, oferecendo uma contribuição cultural hoje, inserida na atualidade. Obviamente, para atender a quantidade de pessoas que por aqui passam ou permanecem, a paisagem acaba mudando radicalmente (novas construções / barracas / lanchas) E, mesmo a estrutura para uma nova cidade requer atenção dos moradores (coleta de lixo), dos comerciantes (lixo e banheiro), da administração pública (saneamento, lixo e banheiros) e da secretaria de turismo (fiscalização e orientação na preservação da natureza).

Exemplos comuns disso: No pequeno espaço onde havia o pescador tranquilamente limpando seu pescado e arrumando suas embarcações, acontece uma invasão de banhistas e lanchas de passeio; A invasão de barracas e comércios a beira mar, além de tornar poluído visualmente, deixa pra trás o ar “intocado” da beleza natural e acarreta a multiplicação do lixo nas praias. Lixo! Algo tão simples de ser tratado. Basta cada um se responsabilizar em depositar no lugar certo, para depois ser coletado; Ruas fétidas, utilizadas como banheiro durante a noite demonstra tremenda falta de educação dos que compartilham o mesmo lugar, e, também falta iniciativa em oferecer aos visitantes o mínimo de estrutura; Ao invés da pacífica noite em que todos dormem com janelas e portas abertas, os altos muros com cerca elétrica se fazem presente pela falta de segurança ou excesso de malandragem atraído pelo alto movimento turístico e por assim dizer, movimento econômico. No lugar das brincadeiras, danças e teatros, restam bares e boates para entretenimento. Sem a vegetação para oferecer sombra e drenar as águas das chuvas, o frágil solo se deteriora com a passagem de grandes veículos.

e Depois?

Ao escolhermos ou acolhermos esse lugar pra lá de especial, certamente temos muito em comum.

É claro e perceptível a falta de atenção, carinho e consideração com que nosso lar tem sido tratado.  Nossos atos e posturas tem demonstrado descaso com estas riquezas. A continuidade da tradição desse admirável povo está próxima do fim, seja por falta de interesse da nova geração ou simplesmente pela transição cultural. O pescador, a rendeira, os cocos de roda ou de zambê e os dramas, são dignos de permanecer e de ser apresentados aos que buscam conhecer a região e sua formação. A forma de viver, falar e expressar artisticamente sobre o cotidiano através das histórias, causos, ou simplesmente produzir e consumir algo como nas décadas passadas é, verdadeiramente, solidificar a origem de uma comunidade.

O estilo de vida “férias” possui, como tudo na vida, direitos e deveres. Temos o direito de nos divertir, de ter nosso comércio, de receber turistas, mas sempre atentos ao dever de respeitar o próximo, cuidar do ambiente e oferecer o mínimo de conforto e segurança a antiga e pacata vila dos pescadores. Considerando tamanha ocupação, sem que haja o mínimo de controle ou planejamento, Pipa está fadada a padecer. Afinal, temos tantos exemplos onde o novo vive em harmonia com o velho, sem precisar acabar com tudo que um dia foi bonito e gostoso de viver.

O tema abordado por esta matéria tem profunda intenção de chamar a atenção e questionar. O que é essencial, frágil e indiscutivelmente agradável? O que faz com que muitos escolham esse pedacinho de terra para visitar, morar ou permanecer? Quais são nossos verdadeiros tesouros?

E felizmente, a resposta é quase unânime entre os que compartilham do mesmo sentimento de amor pelo local: a natureza! Tanto aquela composta pela fauna e flora, quanto aquela composta pela expressão da natureza humana, a arte!

Promover um resgate cultural, fortalece o que é nosso.  Valorizar e cuidar do ambiente que nos ampara e sustenta é preciso.

Conheça. Ame. Preserve.

 

Por Betta Alencastro

Texto originalmente publicado na Revista Bora, edição 11, abril de 2015.

No Comments

    Leave a Reply

    Navegue